25 abril 2014

TOMÁS MAGNO

Peu Sousa e Tomás Magno

O SOLO

Eu estava na Toca, não sei ao certo se ainda era 2004 ou se já estávamos em 2005. Era uma época de grande perturbação para mim por motivos evidentes para quem conhece um pouco da minha história. Era um dia comum e vazio, porque ali não mais estava a minha referência, pai do meu afilhado Bento, marido de minha irmã Constança, meu amigo e mestre, Tom Capone.

O PEU era massa!!!

O telefone tocou, tive uma surpresa, era o PEU. O PEU nunca foi um dos meus amigos mais próximos em Salvador. Mas no telefone era o PEU, o cara que, antes de eu entender que gostava de música, já tocava guitarra igual só ao PEU mesmo. O PEU era massa!!! Extrovertido e louco igual só ao PEU. Era um cara que eu conhecia desde a adolescência – e eu reconhecia minha antiga alegria no PEU, então falar com o PEU era reconfortante para mim naquela época. Você nem imagina o quanto. Mas as notícias estavam longe de serem boas para o PEU. Ele me falou:

Mans!!!!!! Saí da Pitty!!!!

E é assim que começo minha humilde homenagem ao PEU, totalmente suave, pois se “Eu…. Eu…. Eu mesmo, esse cara aqui, Mans!!!!”, se eu… começasse a contar tudo que passamos juntos, vixxxxxxxe.

Porra, Man!!! Que merda, hein?! Passa aqui na Toca, vamos tomar umas. Eu posso ajudar.

Pouco tempo depois, nos encontramos, conversamos e demos muitas risadas. Naquele dia também falamos muito sobre a possibilidade dele montar uma banda e gravar um disco pelo ainda inexistente selo Toca Discos.

O projeto parecia ser uma magnífica oportunidade para envolver minha irmã recém viúva, a quem eu não aguentava mais ver tão triste. Era um ótimo pretexto para sair da repentina e amarga solidão que tinha nos assolado naquela época, sobretudo porque o PEU era extrovertido, carismático, talentoso, e podia dar, sim, a todos naquela casa vazia, de novo, alegria, ânimo, liberdade e opções. Eu estava certo de que sim: estava feito!

Vamos gravar um disco, vamos ativar esse selo e vamos expurgar a tristeza. Vamos, PEU?

Claro, Mans!!! Só se for agora!!!

Massa!!! Então vamos.

Mas não rolou. Foi foda, mas não rolou…

Se você conhece o PEU, sabe que as demos do PEU eram bagunçadas. A verdade é que era tudo tão confuso nas gravações do garage band que não dava para escutar as canções. Constança não se animou muito, não comprou a idéia, mas eu tinha ouvido tantas vezes, voz e violão, na companhia do PEU, que eu sabia, eu entendia, e a cada dia acreditava mais naquelas canções, naquela energia. Eu estava certo de que era a hora de mudar o foco, ou ao menos criar uma esperança tanto para a Constança, quanto para mim e para o PEU .

Mesmo assim, não rolou. Não rolou mesmo. Então nos afastamos, sei lá, por um mês, eu acho.

Novamente o telefone tocou, não me lembro em qual mês de 2005. Para variar, eu andava meio desanimado, mas mais confiante de que algo iria acontecer de bom. Quando atendi, era o PEU.

Colé merma, Mans?!

O bicho estava todo empolgado – o PEU normalmente era empolgado, mas quando ele estava realmente empolgado, vixe ninguém segurava!

Sim, Man! Se ligue… Olhe só! Eu.. eu… eu… eu mesmo! Eu vou produzir o Medulla. Consegui a produção do CD deles pela Sony, vou para aí, vamos fazer juntos, vai ser demais!!!!

Uuuhuuuuu!!!!! Claro! Vamos sim! – Fiquei empolgado também – Que demais!!!!

Mas tem uma coisa – disse o PEU – quem vai gravar são os integrantes do Trêmula, minha banda, então, na sequência, fazemos umas três músicas do Trêmula, beleza?

Vamos gravar o Medulla e finalmente produzir o Trêmula? Claro!!! Fecho Total!!!! Que beleza!!!

PEU deu seu jeito afinal. PEU era massa e ia sair daquela fossa também. Uma qualidade que me espelho muito: não tem tempo ruim aqui. QUERIDÃO!

Claro, Mans!!!! Vai ficar fodaço!!!!!! Vamo nessa!!!! – disse eu.

Fizemos o Medulla, maior barato, fizemos três faixas do Trêmula e – finalmente com um som melhor e bem produzido – Constança embarcou na história de fazer o Trêmula pelo selo Toca Discos. Sucesso! Os assuntos eram vários, existiam momentos de alegria naquela casa novamente, “obaaaa!!!”. Voltamos, aos poucos, mas voltamos.

Daí, pulo uns três livros para contar a história que vim contar. Que só começa mesmo agora.

Essa história é de um guitarrista que compôs todas as músicas, produziu e gravou um disco inteiro da sua banda comigo na Toca do Bandido, em 2005.

A banda era Trêmula, e fazia tempo que o disco estava gravado e mixado. Na verdade, só faltava um solo de guitarra que o PEU se recusava e se escondia para não fazer. Era o solo de guitarra da última música, que se chamava “Hoje eu acordei”.

Eu chamei várias vezes o PEU para gravar aquele solo. Eu insistia:

Porra é essa, Mans?! Grava esse solo duma vez.

E ele sempre respondia:

Não, Tomás, ainda não… – e saia meio cabisbaixo.

Juro que, no início, eu não entendia porque ele ficava meio receoso quando eu me referia àquele solo, mas fui pegando umas pistas e comecei a compreender com o tempo. Não tinha a ver com solo, não era o solo. Era totalmente perceptível que, naquele espaço de música, havia um estrategista apaixonado em guerra com o mundo. A questão é que aquele solo representava o mundo ideal, um mundo que só o PEU conhecia, porque era o mundo de PEU.

Eu só sei que ele tinha pensado muito, e teve muito tempo para repensar aquele solo, mas, para falar a verdade, na minha frente ele nunca nem tinha tentado fazer um possível solo. Desde a pré até o momento final, havia uma pressão, compressão, descompressão agindo simultaneamente ali dentro. Acho que estava ali uma baita luta interna de provação e ele escolheu aquele solo como rei do exercito inimigo, como o alvo a ser abatido.

Uma guerra, diga-se de passagem, mais que justa. Eu estava ali, ao lado dele, como aliado nessa guerra contra a cultura da mesmice, da escravidão do sistema cultural, dos músicos medíocres plagiadores, dos produtores musicais matadores de cachês, das gravadoras que preferiam as reproduções ao invés das inovações. Essa guerra tinha que ser ganha a qualquer custo, afinal, tínhamos todas as condições para isso. Nós éramos, de fato, loucos, insanos e apaixonados.

Com o disco já na Sony e na WEA – na mão de empresários sem finalizar “Hoje eu Acordei” – Já era hora:

Não dá mais, PEU, vamos gravar.

Lembro que o PEU foi na Toca apenas para fazer esse solo, nada mais, e que esse dia foi meio engraçado.

Sabe aquela pessoa que eu conhecia? Que vocês conheciam? O PEU? Pois é, ele desapareceu. Repentinamente, ao meu lado, surgiu uma pessoa completamente introspectiva e calada, uma pessoa lidando com um dos maiores obstáculos de sua vida. Aquele solo chegou no limite da atormentação e tinha que ser sobrepujado com louvor. Claro! O solo representava a arte da superação, o solo representava todos que se opuseram, que lhe rebaixaram, que lhe tiraram algo por direito, aquele solo era a maior prova de que ele, PEU, era digno de estar ali, naquele momento, para fazer aquela obra de arte única, aquela para ser lembrada, aquela que justificava tanto receio, o solo era sua vingança, aquele solo tinha que ser esmagador para que nunca mais houvesse dúvidas de que não havia mais dúvidas.

Eu tinha um sorriso sarcástico no rosto, do tipo: “Ahahahaha, se fodeu, vai ter que fazer o solo, lá la lalá láaaa!!! Ahahahahah, presepou e agora vai ter que provar da própria presepada que criou em torno desse solo”. Amigo mesmo serve para isso, para dar uma zuada básica. Ahahahahaha!

Acreditem, eu estava me divertindo muito com toda aquela situação porque, no fundo, tudo era muito engraçado mesmo. O PEU estava até meio pálido! Ele estava muito, muito tenso. Ahahahahah, juro que não conseguia tirar o sorriso do meu rosto. “Será que ele consegue? La la lala lá laaaaaa, ahahahaha”.

E nosso amigo começou a montar uma parafernália dos infernos para fazer aquele solo: acho que ele ligou uns dezessete pedais na sequência. Já tinham acabado os cabos pontes para pedais no quinto pedal e ele começou a usar os cabos normais. Na real, ele estava criando um transformador gigantesco dentro do estúdio. “Ahahahaha!”. E ainda, no final, ele liga um Fender Reverb cabeçote! Quando tudo estava finalmente conectado, além da montanha de cabos espalhados por todo o estúdio, nós tínhamos o hammy mais alto e poderoso de toda a história da Toca do Bandido!

Resultado: a guitarra só foi ligada depois de quase meia hora de montagem. Mas ele não deu uma tocadinha sequer, apenas palhetava rapidamente para saber se saia som ou não, era um line check. Portanto, sem passar som e nem timbre em momento algum, posicionou os botões do Marshall Plexi da Toca e me falou:

Vamo nessa!

Nesse segundo, tudo mudou.

Estava ali o PEU, aquele que todos conheciam. Aquele que ficará eterno em nossos corações, confiante, empunhando sua arma sangrenta, o PEU estava pronto, pronto para vencer a batalha. Eu me lembro bem: envolvido por toda aquela reviravolta comportamental, girei minha cadeira 180° para a tela do computador e falei, dando ao mesmo tempo um bom tapa no botão de Play/Rec:

Vamos acabar a porra desse disco.

Soltei da capo, a música já mixada, o som bem alto – quem me conhece sabe que nessa época então… Vixi, eu ouvia alto e sem perdão – mas, como um filme, ali só havia o silêncio e a concentração, como se a música estivesse baixinha, naquele momento eu fiquei tão tenso quanto o PEU, afinal aquele disco foi um sucesso, a proposta da gravação desse disco naquela casa tinha sido um sucesso, conseguimos desfocar da tristeza, trazer alegria, erguer a cabeça, pensar no futuro, e tinha ficado realmente um discaço, super original, super aceito nas gravadoras e em todo lugar, e eu, esperando a hora do solo chegar, via esse filme na minha cabeça, torcia com o PEU, pelo triunfo daquele solo com todas a minhas energias.

5…4… 3…..

Que solo FOOOOOOODAAAAAAAAAAAA!!!!!!!!!!

Que solo fooooooddddarasssssoooooooo!!!!

Nem te conto.

Lembro daquele solo como se fosse ontem. Acho que nunca esquecerei do momento em que gravamos aquele solo, aquele foi certamente o solo mais incrível que já presenciei em toda minha vida. Foi uma vitória atrás da outra a cada pedal ligado e desligado durante a execução. Transbordou uma alegria em mim porque tudo tinha valido a pena, ainda mais porque, no final, ainda poderia acontecer mais coisas fodas e legais. Aquele solo foi tão vitorioso que o PEU conseguiu definitivamente o que queria, eternizar em mim e nele aquela vitória.

A gravação daquele solo, certamente é a minha melhor, mais marcante e mais extraordinária lembrança de meu amigo PEU.

Naquele momento, levantei e, sem falar nada, dei um abraço nele. Na sequência, com os dois braços para cima, festejando, falei:

- Mans, acabamos o disco. Esse solo foi fodaaaaaaa!!!! Acabou!!! Vamos beber.

Foi de prima, ele queria gravar mais um, mas convenci o PEU que solo algum seria melhor do que aquele solo. Aquele era O Solo. Não precisava ser diferente, foi vitorioso, transbordava energia, um solo único!

Ouvimos o solo duas vezes e ele, como quem tinha tirado o mundo das costas, falou:

- Porra, Mans!!!! Vamo beber???

Com todo amor do seu eterno amigo,

Tomás.

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ESTUDO PARA PRIMEIRO ALBUM Nº4 // Single
  1. ESTUDO PARA PRIMEIRO ALBUM Nº4 // Single
  2. ESTUDO PARA PRIMEIRO ALBUM Nº2 // Single
  3. ESTUDO PARA PRIMEIRO ALBUM Nº3 // Single
  4. ESTUDO PARA PRIMEIRO ALBUM Nº1 // Single