28 abril 2014

PITTY

Os acordes e melodias simplesmente escorriam por entre seus dedos. Eu gostava desse jeito caótico e desencanado de compor, fazia um bem danado pra minha personalidade obsessiva e meticulosa. Convivendo com ele aprendi a confiar cada vez mais na intuição musical.

Foto Peu e Pitty_Atual OK

Vai! Então canta, passarinho!”

Ele me disse assim uma vez, lá no começo. E repetiu tantas vezes depois, que na minha cabeça virou Passarinho, com P maiúsculo. Até hoje não sei se adjetivo, ironia, substantivo ou afago; acho que um pouco de cada dependendo do dia. Conheci Peu na adolescência. Nunca pensei que um dia teríamos uma banda juntos; ele era o guitarrista da Dois Sapos e Meio, eu a menina do Inkoma. Mesma galera, referências musicais um pouco diferentes. Até que anos depois veio a oportunidade de gravar meu disco solo, com uma gravadora e tudo mais. A coisa parecia séria e eu precisava montar uma banda. Nós tínhamos tocado juntos na banda de Galvão.

E eu sempre achei Peu genial com uma guitarra na mão. Rolava uma mágica, mesmo. Cabreirice dos dois lados, ele tinha a Diga Aí Chefe e queria investir nisso, eu sabia de sua alma indomável, mas no fim escolhemos: vamos nessa. Vamos ver no que dá. E foi foda. Um encontro musical explosivo e intenso, pra todos os lados. Ele era muito grande, e sua criatividade preenchia o espaço. Em qualquer situação com um instrumento na mão ele ocupava e se sobressaía- tem gente que simplesmente não nasceu para ser coadjuvante.

Ele gravou as guitarras do meu primeiro disco, com maestria. Em algumas um pouco emburrado comigo, porque não tinha solo naquela composição e ele tinha preguiça de tocar power chord, rs. Gostava mesmo era de voar. No show, livre das amarras do estúdio ele voava alto e não tinha quem segurasse. E contribuiu tanto com os arranjos e com todo o resto, inclusive me ajudando nas minhas composições, que hoje escuto aquele disco e vejo a cara dele.
Escuto Equalize e lembro exatamente do momento da composição: ele de violão em punho, eu com meu caderno.
Do nada, me saca um dedilhado incrível, e provoca: “vai, passarinho!”
Pera aí, man. Deixa eu pensar. “Não, vai encaixando as palavras aí, ó”. Mas e essa métrica muito doida!? “É isso mesmo. É um diálogo”.
Verdade. Era pra soar como um diálogo.
Peu, precisamos de uma ponte, uma parte C. “Pode crer! Então vamo assim…”. E ia mesmo, com facilidade.
Os acordes e melodias simplesmente escorriam por entre seus dedos.
Com Deja Vu foi meio assim também. Eu gostava desse jeito caótico e desencanado de compor, fazia um bem danado pra minha personalidade obsessiva e meticulosa. Convivendo com ele aprendi a confiar cada vez mais na intuição musical.
Tínhamos um repertório de rodinha de violão também, pros momentos de lazer. E porque uma vez, antes do meu disco, fizemos uma temporada tocando na praça de alimentação do shopping. Precisávamos da grana, e aproveitamos pra tocar Red Hot, Alanis, Lenny Kravitz, coisas de que gostávamos e sabíamos que não fariam o povo engasgar com o Big Mac. Até um Velvet Underground enfiamos no repertório, nos divertíamos subversivamente com isso enquanto tentávamos ganhar a vida como músicos.
Milhares de histórias e lembranças. Que estrada longa, intensa, confusa, esplêndida e maluca tivemos juntos, hein, Peu? Gostaria de ter te dito tudo isso, mas acho que você sabe.
Queria te contar que hoje quando ouço aquela música do Pink Floyd eu lembro de você, então “shine on, you crazy diamond”.
Que a sua música vai sempre nos lembrar que esse dom divino é presente para raros.

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ESTUDO PARA PRIMEIRO ALBUM Nº1 // Single
  1. ESTUDO PARA PRIMEIRO ALBUM Nº1 // Single
  2. ESTUDO PARA PRIMEIRO ALBUM Nº2 // Single
  3. ESTUDO PARA PRIMEIRO ALBUM Nº4 // Single
  4. ESTUDO PARA PRIMEIRO ALBUM Nº3 // Single