05 maio 2014

CRIATURA ARTÍSTICA

figuraartisticaCreditPeu Sousa (1977- 2013) era um devoto do sonho. Alguém que viveu a arte em tempo integral e deixou uma assinatura reluzente.  Praticava a entrega incondicional nos palcos e, não raro, nos registros fonográficos. Entendia que o transe era a parte que lhe cabia no latifúndio estético. E, ao empunhar seu instrumento, deixava isso evidente em fraseados sedutores, timbragens insanas e afinações repletas de personalidade.

Suas referências iam de Jimi Hendrix a Johnny Marr, passando por Eddie Hazel, John Frusciante, Lou Reed e Jimmy Page. Todas devidamente acomodadas naquilo que era a sua própria voz. Sua maneira inquieta e multifacetada de cometer canções. Na primeira banda de projeção, a Dois Sapos e Meio, por exemplo, fruto do efervescente underground soteropolitano dos anos 1990, Peu inseria elementos pop na ruidosa linguagem roqueira. Temas radiofônicos conviviam em harmonia com a reverberação experimental, com o peso de determinados riffs.

Essa característica o acompanharia por outros projetos. Composições como “Equalize”, uma das canções mais bem-sucedidas comercialmente de “Admirável Chip Novo” (2003), álbum de estreia da cantora Pitty, e “Déjà Vu”, presente no segundo disco da artista, “Anacrônico” (2006), são provas disso.  E aos acordes de guitarra, o acréscimo de backing vocals sempre apurados.

Dividindo-se entre os vocais de apoio e o posto de cantor e letrista, Peu visitou os assuntos que lhe eram caros. Homem de frente e compositor em grupos como Dois Sapos e Meio, Diga Aí Chefe!, Trêmula e Nove Mil Anjos, escreveu sobre hedonismo, amor romântico, dores e delícias da vida na estrada, política, entre tantos outros. “Se a vida é louca/ então também vou pirar”, afirma ele em “Não tenho limites, só desejos”.

Já como produtor musical, levava a vasta experiência adquirida nos palcos e nas sessões de gravação aos estúdios.  Aficionado por arranjos melodiosos e pelas possibilidades de manipulação de áudio oferecidas por mesas e salas de gravação, era de um rigor técnico e de uma generosidade criativa tamanhas. Uma verdadeira festa para os sentidos. Sorte de quem teve a privilégio de dividir com ele a busca das melhores sonoridades.

Foi um dos músicos mais intensos e complexos da fauna brasileira nas últimas décadas. Uma saudosa criatura artística.

 

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ESTUDO PARA PRIMEIRO ALBUM Nº3 // Single
  1. ESTUDO PARA PRIMEIRO ALBUM Nº3 // Single
  2. ESTUDO PARA PRIMEIRO ALBUM Nº1 // Single
  3. ESTUDO PARA PRIMEIRO ALBUM Nº4 // Single
  4. ESTUDO PARA PRIMEIRO ALBUM Nº2 // Single